'Brasileiro vê no cinema o que vê na Seleção', diz Kleber Mendonça Filho
Parte do financiamento público gerou críticas, mas Mendonça Filho considera isso uma "visão atrasada".

Foto: Divulgação
Kleber Mendonça Filho, 57, comentou sobre o reconhecimento internacional de "O Agente Secreto", que foi indicado ao Oscar.
O diretor admitiu que é muito importante que os filmes brasileiros sejam vistos, em primeiro lugar, pelo povo brasileiro. "Eu acho que é incrível o Brasil, o brasileiro, as brasileiras terem orgulho de um produto cultural que é brasileiro e que está tendo uma aceitação internacional.
Eu acho que o público brasileiro vê no cinema um pouco do que senti vendo a Seleção numa boa fase. Um atleta, um músico", afirmou. "Fico muito feliz de ver O Agente Secreto tendo se transformado num arrasa-quarteirão, num blockbuster brasileiro no Brasil", disse durante visita à BBC.
Garantir que o cinema nacional seja consumido no país é um dos maiores desafios em um cenário dominado por Hollywood. "E esse é um desafio constante não só para o cinema brasileiro, mas para o cinema francês, para o cinema alemão, para o cinema canadense, para o cinema do mundo inteiro."
Kleber também comentou sobre o longa estar presente no Carnaval desse ano. "Não sei se vocês sabem, mas tem o bloco Pitombeira dos Quatro Cantos em Olinda, e o Wagner usa uma camisa da Pitombeira de 1977. A venda dessas camisas já garantiu não só esse Carnaval, mas o do ano que vem também. Ou seja, o filme está se desdobrando de várias maneiras e isso é muito especial", declarou.
O diretor destacou a energia dos brasileiros nas redes sociais. "É lindo ver o público brasileiro mandando tanta energia e se fazendo presente na internet".
Essa mobilização também impressiona os americanos. "Os amigos da Neon, que é a distribuidora nos Estados Unidos, ficam encantados e pasmos com a força do Brasil na internet, no sentido de apoiar um filme brasileiro", afirmou.
Com orçamento de cerca de R$ 28 milhões, "O Agente Secreto" contou com recursos nacionais e internacionais: pouco mais de R$ 14 milhões vieram de coprodutores estrangeiros, cerca de R$ 5,5 milhões da iniciativa privada e R$ 7,5 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).
Parte do financiamento público gerou críticas, mas Mendonça Filho considera isso uma "visão atrasada". "Eu acho que é uma falta de visão extraordinária, porque um país inteligente investe na sua própria cultura, da mesma maneira que um país inteligente investe na educação e na saúde. São investimentos que voltam multiplicados em relação ao que o país, como nação, ganha em identidade, em compreensão do próprio país", afirmou.
Segundo ele, o Brasil produz pouco mais de 100 filmes por ano, a maioria com incentivo público, e citou Coreia do Sul, França, Alemanha, Holanda, Austrália, Canadá e México como exemplos de países que investem na própria cultura. O longa já acumulou 56 troféus em 36 premiações, incluindo os Globos de Ouro.
Um episódio chamou atenção: o prêmio de Melhor Filme Internacional no Critics Choice Awards 2026 foi entregue no tapete vermelho, fora do palco. "Num momento político pelo qual os Estados Unidos passam hoje, onde existe uma energia tão negativa em relação ao elemento externo, estrangeiro, imigrante, e o prêmio ser entregue do lado de fora como uma coisa super frívola e superficial, quase como uma brincadeira. Eu acho que não pegou bem de forma alguma", afirmou. "Eu espero que no ano que vem os filmes estrangeiros tenham um tratamento mais respeitoso."
Dias depois, Mendonça Filho e Wagner Moura anunciaram o prêmio de Melhor Filme, aproveitando para enviar um recado elegante sobre o cinema internacional. "A gente meio que usou a oportunidade para mandar um bom recado, que eu acho que foi no ponto, foi elegante e nós tivemos ainda a honra de entregar o prêmio da Sony para a sua equipe", disse.


