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Centro de detenção de imigrantes mantém crianças além do permitido por acordo nos EUA

Duração das prisões viola a diretriz estabelecida no chamado Acordo Flores

Por FolhaPress
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 Centro de detenção de imigrantes mantém crianças além do permitido por acordo nos EUA

Foto: Public Domain

ANGELA BOLDRINI E ISABELLA MENON - Pelo menos 675 crianças imigrantes foram mantidas por mais de 20 dias em um centro de detenção no sul do Texas de janeiro a outubro de 2025, segundo dados do governo dos Estados Unidos analisados pela Folha. Entre elas estão 11 brasileiras.

A duração das prisões viola a diretriz estabelecida no chamado Acordo Flores, uma decisão judicial de 1997 que criou parâmetros para o tratamento de imigrantes menores de idade.

O South Texas Family Residential Center, na cidade de Dilley, virou alvo de protestos depois que um menino equatoriano de cinco anos foi preso, em janeiro, por agentes federais de imigração ao voltar da pré-escola em Minnesota. Liam Conejo Ramos foi liberado em fevereiro, após comoção popular e protestos.

Os dados foram fornecidos pelo Departamento de Segurança Interna dos EUA para o Deportation Data Project, da Universidade da Califórnia, via lei de acesso à informação americana.

No período analisado, 1.859 menores passaram a maior parte de suas detenções no centro de Dilley. Isso inclui crianças que foram detidas em outros estados, como Massachusetts, e enviadas ao Texas. Ou seja, pouco mais de um terço desse total permaneceu na instalação além dos 20 dias permitidos.

Como a Folha revelou em janeiro, um deles é um menino brasileiro nascido em 2023, que ficou 44 dias detido no Texas antes de ser deportado para o Brasil. Outros dez menores brasileiros ficaram em Dilley por períodos que variam de 21 a 34 dias.

O número de menores que excederam o tempo permitido pode ser maior, uma vez que há 240 registros de detenções sem data de saída --o que pode indicar um erro de preenchimento ou que as crianças continuavam detidas à época de extração dos dados, em outubro de 2025. Na segunda hipótese, o número salta para 915, quase metade das detenções.

No caso de pelo menos quatro crianças, a Folha confirmou que elas estão detidas há oito meses. A situação da família da egípcia Hayam El Gamal é diferente da maior parte dos outros imigrantes detidos na instalação.

Mohamed Soliman, marido de Hayam, foi preso em junho passado, acusado de lançar um coquetel molotov contra um grupo de manifestantes que defendia a libertação de reféns israelenses em Boulder, cidade do Colorado.

No dia 3 de junho, a família inteira foi detida. Na época, os filhos tinham idades de 5 a 17 anos. A menina mais velha completou 18 anos em Dilley.

Os egípcios chegaram aos EUA em 2022 e fizeram um pedido de asilo que concedeu permissão para que permanecessem no país até setembro do ano seguinte, afirma comunicado do governo Donald Trump.

Embora tivessem autorização para trabalhar, passaram a ser considerados em situação migratória irregular por terem excedido o prazo do visto --algo comum em casos de pedidos de asilo ainda pendentes.

O advogado Eric Lee, responsável pela defesa da família, afirma que Hayam e os filhos estão em Dilley pagando por um crime cometido por Soliman, do qual nenhum deles tinha conhecimento.

Segundo ele, todos cooperaram com as autoridades americanas, inclusive em longas entrevistas com o FBI, e deveriam ser tratados como colaboradores dos EUA.

"Eles acreditavam estar legais. Tinham pedido de asilo em análise e permissão para trabalho", disse.

O advogado alerta que o retorno ao Egito colocaria a família em risco extremo. "Especialmente as mulheres enfrentariam risco sério de violência física ou morte em comunidades religiosas conservadoras."

Segundo Lee, as condições do centro de detenção seriam comparáveis --ou até piores-- às de prisões destinadas a pessoas condenadas por crimes.

Além da permanência prolongada, ele relata abusos por parte de guardas que incluem insultos raciais, negação sistemática de acomodações religiosas e alimentação inadequada.

"A comida é quase intragável, a água frequentemente deixa as pessoas doentes. Há bebês que precisam dessa água para a fórmula, mães que precisam beber para produzir leite."

Na semana passada, uma família acusou o governo americano de negar medicação a uma menina mexicana de 18 meses. Ela havia sido internada por problemas respiratórios potencialmente fatais e, ao receber alta, foi devolvida ao South Texas Family Residential Center.

Não há uma escola organizada no centro. Segundo o advogado, as crianças passam os dias dormindo, chorando ou lidando com pesadelos.

"São indivíduos severamente depressivos. As vidas deles foram efetivamente arruinadas e nunca se recuperarão do que estão passando", afirmou.

Ele acusa o governo Trump de forçar uma permanência longa das famílias nos centros de detenção de forma deliberada.

"Não é negligência. É uma política pensada em Washington para forçar crianças e pais a sofrerem", disse.

O medo e angústia de ficar no South Texas Family Residential Center é retratado pelas crianças em desenhos.

Em alguns deles, que foram compartilhados pelo advogado à Folha, traços infantis de menores atrás das grades são acompanhados da frase "Eu tenho seis anos".

Em outro, está escrito "Eu tenho nove anos" e as palavras "Minha casa".

Já a filha mais velha de Hayam, hoje com 18, passou a escrever cartas à imprensa e a autoridades para denunciar a situação da família.

Ela questiona os motivos pelos quais ela e sua família estão sendo mantidas no sistema prisional.

"Eu gostaria que tivéssemos conhecimento sobre esse plano, pois assim poderíamos tê-lo impedido", diz a jovem sobre o ataque cometido pelo pai.

O advogado afirma que a família tem "fortes chances" de obter asilo, mas teme que o governo prolongue a detenção por anos.

A defesa já obteve uma decisão judicial que impede a aplicação automática de um dispositivo que autoriza a manutenção de famílias presas mesmo após decisões favoráveis.

Além disso, a família arrecadou mais de US$ 100 mil com doações de mais de 1.200 pessoas para tentar obter liberdade provisória.

"Se eles forem libertados, estou confiante de que vão vencer o caso", disse.

"O que isso mostra é uma administração disposta a punir uma família inteira, mesmo sabendo que, no fim, ela provavelmente será vitoriosa."

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