Estreito de Hormuz é um dos atalhos marítimos que fazem o mundo girar
Confira por que a passagem estratégica concentra o fluxo global de petróleo e influencia diretamente a economia mundial

Foto: Wikipedia
GABRIEL JUSTO - Quando acaba a bateria do celular, basta colocar na tomada que ele volta a funcionar. E quando vai tomar banho, a água sai bem quentinha. Nossa vida só é fácil assim por causa da energia. Mas de onde ela vem?
No Brasil, a maior parte vem da força da água, dos ventos e até do Sol. Mas muita coisa ainda depende do petróleo, como alguns carros, ônibus e caminhões, que transportam tudo que a gente consome.
Depois da Venezuela, as maiores reservas de petróleo estão no Canadá, na Rússia e, principalmente, no Oriente Médio. Dessas regiões, ele precisa ser transportado para o resto do mundo, muitas vezes por atalhos estratégicos (como os adultos chamam coisas muito importantes, que facilitam ou atrapalham a vida de muitas pessoas).
Um desses atalhos é o estreito de Hormuz, um pedacinho de mar que é a única acesso dos países do golfo Pérsico (entre eles Arábia Saudita, Kuait, Qatar, Iraque e Irã, que juntos controlam quase metade da produção mundial de petróleo) a mar aberto. Qualquer coisinha que acontece nessa região vira um problemão no mundo todo.
No final de fevereiro, por exemplo, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, que revidou principalmente fechando o estreito de Hormuz. Como 20% de todo o petróleo do mundo passa por lá, em pouco tempo começou a faltar petróleo na Ásia e na Europa, o que fez os preços do óleo (e de tudo mais) dispararem. É como se o Irã dissesse "essa rua agora é minha, e só passa por ela quem eu quero".
Desde 1994, um grande acordo mundial (chamado de Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar) definiu quem manda em cada parte do mar. Segundo ele, as águas até 22 km da costa dos países fazem parte deles -é o chamado mar territorial. Como a parte mais estreita de Hormuz tem apenas 22 km, o Irã e o seu aliado do outro lado, Omã, entendem o estreito como parte do seu território, e que têm o direito de controlar o vaivém de navios como eles bem entenderem.
Todo mundo sabia que um dia o Irã poderia fazer isso. Não à toa, os países daquela região passaram anos construindo tubos gigantes que levam o petróleo e o gás natural dali para o mar Vermelho e para o mar Mediterrâneo. São os oleodutos, que funcionam como rotas alternativas ao estreito de Hormuz. Graças a eles, uma parte do petróleo do golfo ainda consegue sair dali -o que só resolve uma parte do problema, já que essa alternativa não dá conta de tanto petróleo, além de ser bem mais cara que os navios.
Pelo mundo, existem muitos outros atalhos que facilitam o comércio global. Dois deles ficam ali no Oriente Médio: o estreito de Bab el-Mandeb e o canal de Suez, cada um em uma extremidade do mar Vermelho. Juntos, eles são a rota mais curta entre os dois lados do mundo, o Ocidente e o Oriente.
Qualquer interrupção nesse caminho causa caos no comércio mundial. Um navio que leva 14 dias para ir golfo Pérsico a Londres, por exemplo, demoraria 24 dias para chegar ao mesmo lugar contornando o continente africano -uma viagem longa e caríssima. Se esse navio quisesse seguir até os Estados Unidos, ele ainda teria de passar por mais um estreito, o de Gibraltar, entre a Europa e a África. E para completar a volta ao mundo, passaria ainda pelo canal do Panamá (construído para que os navios não precisassem contornar toda América do Sul para chegar ao oceano Pacífico), e pelo estreito de Malaca, entre a Malásia e a Indonésia.


