Não existe Axé sem trio elétrico: a história do encontro que revolucionou a música brasileira
Movimento completa quatro décadas em 2025, quando o trio elétrico celebra 75 anos de existência
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Foto: Secom/PMS
Há 75 anos, um caminhão adaptado para levar música às ruas deu início a uma revolução sonora que mudou para sempre o Carnaval de Salvador e a música baiana. O trio elétrico não apenas ampliou o alcance do som, mas pavimentou o caminho para o surgimento do Axé Music, que celebra 40 anos de história em 2025.
Em 2025, o Axé Music completa 40 anos, data baseada no disco "Magia" de Luiz Caldas, considerado o marco zero do ritmo. Em comemoração, o Farol da Bahia reúne depoimentos de figuras importantes para o movimento em uma série de cinco matérias especiais.
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Tudo começou com um Ford Bigode 1929, apelidado de Fobica. Em 1950, Dodô e Osmar adaptaram o veículo e desfilaram tocando violão e cavaquinho ligados à bateria do carro. A ideia era simples, mas revolucionária: um carro que levava música por onde passasse. O nome "trio" nasceu pois três pessoas faziam o som: a dupla criadora e o músico Temístocles Aragão.
Família Macedo / Arquivo Pessoal
No segundo ano de desfile, a Fobica deu lugar a uma caminhonete, que conseguia levar mais equipamentos. E assim permaneceu, até os meados da década de 70, quando o trio elétrico evoluiu para um caminhão.
O pesquisador e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Paulo Miguez, explica que muito além de proporcionar uma maior difusão das músicas pelas avenidas, o trio elétrico “desorganizou” a estrutura de domínio da elite que imperava na época nos grandes circuitos carnavalescos.
“O trio aparece em um momento e a partir dali desarruma aquele lugar. As elites dominavam aquele espaço e os setores populares eram obrigados a fazer as festas longe dali, mas o trio interferiu nesse processo. Caetano foi definitivo: só não vai atrás quem já morreu. Dança todo mundo, não precisa nem saber dançar. Não há barreiras para a entrada, é um território onde se exercita a democracia”, disse em entrevista ao Farol da Bahia.
Reprodução
Foi nesse vetor de mudança que Moraes Moreira, em 1970, ousou fazer algo novo: cantar. Esse gesto, que parece simples, abriu caminho para tudo que conhecemos hoje desse movimento. Misturando o frevo elétrico com samba, baião, choro e outros ritmos brasileiros, Moraes criou um som que ajudou a moldar o Axé.
“Fui para o Rio de Janeiro, comecei a fazer parceria com Moraes, fizemos os discos de trio elétrico e a gente não parou mais. Fomos criando um determinado tipo de banda de bateria, baixo, guitarra e colocamos o cantor: Moraes. A gente estabeleceu uma forma de fazer trio elétrico em que todos foram acompanhando. Veio Bell, Luís Caldas, eles foram chegando nessa época aprendendo as coisas que a gente fazia para poder repetir e fazer igual e daí em diante foram surgindo essas grandes estrelas”, relembrou Armandinho, filho de Dodô, em entrevista ao Farol da Bahia.
Da geração filha dessa influência, é difícil encontrar um artista que não tenha uma boa história com o trio para contar. Bell Marques, lenda viva da folia, revelou ao Farol da Bahia que a magia do palco móvel é o que permite a decisão dos grandes arranjos feitos por ele nas apresentações pelos circuitos.
“Eu tenho muito esse hábito. É uma coisa na minha história, eu não ensaio, eu subo no trio elétrico e lá as coisas acontecem. Eu acho que acontecem com uma energia completamente diferente. Até as que são novas, eu, meus músicos e meu maestro, fazemos os arranjos em cima do trio elétrico”, revelou.
E nós que contemplamos de baixo sabemos: quando o trio passa, o som toma conta, atravessa barreiras e junta todo mundo no mesmo ritmo.
Confira depoimentos completos de Paulo Miguez, Sarajane, Armandinho, Bell Marques, Beto Jamaica e Compadre Washington: