Anúncio de tarifa imposta por Trump gera incertezas no agro, que fará cálculos
Entidades afirmam que alguns segmentos já pagam tarifas superiores a 10% e têm dúvidas sobre aplicação da medida

Foto: Tia Dufour/The White House via Flickr
O anúncio nesta quarta-feira (2) da tarifa de 10% que será imposta aos produtos brasileiros pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, gerou incertezas no agronegócio brasileiro. Entidades ligadas a setores como citricultura, carne e etanol têm dúvidas de como será a aplicação da medida, já que alguns dos segmentos hoje já pagam tarifas superiores a esse patamar para exportar para o país norte-americano.
A Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), por exemplo, informou que primeiro vai tentar entender o anúncio para somente depois se pronunciar.
"A carne brasileira já é taxada em 26,4%, com uma cota inicial isenta de 65 mil toneladas, compartilhada entre 10 países. Essa cota, que é anual, costuma se esgotar logo no primeiro mês do ano. Mais de 70% do que exportamos no ano passado entrou com a tarifa", diz a associação.
Apesar disso, a Abiec informou acreditar num estreitamento da parceria porque os Estados Unidos enfrentam desafios no ciclo pecuário e, por pelo menos dois anos, precisarão de quem possa garantir volume, qualidade e preço. "E esse parceiro é o Brasil", disse.
O anúncio de Trump gerou dúvidas também para a citricultura, que atualmente tem uma tarifa fixa de US$ 415 por tonelada de suco para exportação e que o percentual pago é de 11%, um ponto acima do patamar anunciado por Trump nesta quarta-feira.
Representantes de empresas exportadoras solicitaram estudos sobre o real impacto da medida para a laranja, que tem o Brasil como maior player mundial -75% do comércio global de suco é dominado pelo país.
Uma das dúvidas dos setores é se essa tarifa será cumulativa com as já existentes ou não. Se o patamar for linear, por exemplo, hipoteticamente alguns setores poderão pagar menos imposto.
Pavel Cardoso, presidente da ABIC (Associação Brasileira da Indústria de Café), também destacou que ainda não é possível medir o impacto agora, sem conhecer os detalhes da medida.
Ele antecipa, contudo, que os Estados Unidos "não produzem e não produzirão café por razões climáticas" e que "o café representa um número importante para a economia americana".
Cardoso cita estudos da National Coffee Association (NCA), que apontam que o café representaria US$ 343 bilhões anuais de movimentação financeira na economia americana.
"Esses números foram levantados para demonstrar para o governo americano que nem sempre somente a exportação é benéfica para o país", diz ele.
José Guilherme Nogueira, CEO da Orplana (Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil), disse que é preciso analisar caso a caso todos os produtos fabricados com a utilização de açúcar para conhecer o real impacto.
No caso do etanol é diferente, afirmou, já que os Estados Unidos não conseguem produzir todo o açúcar que consomem. Todavia, também é necessário esperar os detalhes do tarifaço de Trump.
Nogueira, porém, afirmou que esperava um percentual maior em relação ao etanol, de por volta de 18%.
José Orive, diretor-executivo da ISO (International Sugar Organization), afirmou durante o Cana Summit, em Brasília, que muitos acreditaram que as tarifas seriam ainda maiores.
"Creio que para todos surpreende as tarifas anunciadas por Trump [...] Esperamos com nossos amigos da Orplana [organizadora do evento] continuar decifrando a bola de cristal", disse.
Nesta quarta, ao fazer o anúncio, Trump disse que hoje é "dia da libertação" e que "o destino dos Estados Unidos foi retomado".
Todos os países com os quais os EUA fazem comércio pagarão uma taxa linear de 10%, que entrará em vigor já neste sábado (5).
As nações que, na interpretação do governo americano, prejudicam mais os EUA com barreiras -sejam elas tarifárias ou não-, serão atingidas com tarifas mais duras.