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De Paulinho Camafeu a Claudia Leitte: as transformações que fizeram o Axé ultrapassar a fronteira baiana

40 anos não são 40 dias, e para sobreviver o Axé Music teve que se manter atualizado às tendências das novas gerações

Por Giovanna Amorim
Ás

De Paulinho Camafeu a Claudia Leitte: as transformações que fizeram o Axé ultrapassar a fronteira baiana

Foto: Divulgação

Com a indústria musical voltada para o eixo Rio-São Paulo, os artistas do Axé Music lutaram muito para ocupar um lugar ao sol no mercado cultural do Brasil. Mesmo depois de conquistar posições de destaque e ter contribuindo tanto para a música popular brasileira, este movimento baiano teve que passar por diversas transformações para não ficar perdido na história. 

Voltando às raízes do Axé: se hoje esse som existe é também por causa de Paulinho Camafeu, o compositor baiano famoso pelos hits que deram vida ao movimento artístico musical, com músicas que trafegavam entre o duplo sentido e a potência do povo negro. Para que o Axé Music começasse a ser comercializado, ele teve que quebrar muitas barreiras do preconceito e seguir as tendências da música popular brasileira. 

Em 2025, o Axé completa 40 anos de história, data baseada no disco “Magia” de Luiz Caldas, considerado o marco zero do movimento. Em comemoração, o Farol da Bahia reuniu depoimentos de figuras importantes para o movimento em uma série de cinco matérias especiais:

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Foi Paulinho Camafeu quem escreveu a música ‘Fricote’, destaque do álbum ‘Magia’ de Luiz Caldas, considerado pai do Axé Music. E se Luiz é o pai, pode se dizer que o Estúdio WR, fundado por Wesley Rangel, em 1975,  foi o berço onde o Axé começou a se desenvolver e caminhar para a independência. 

Wesley Rangel

Reprodução 

Em entrevista ao Farol da Bahia, o engenheiro de som, Nuno Penna, contou que a gravadora foi o ponto de encontro de ritmos que fizeram do axé se tornar essa mistura de gêneros. 

“No começo dos anos 80, você já tinha alguns movimentos como a música dos trios, que era com Armandinho, que já vinha com Moraes Moreira; as músicas do centro, que era a música de rua, como o samba reggae; também tinha as que vinham da universidade com mastros e o jazz. A WR foi o espaço democrático que juntou todo esse pessoal para fazer música, por isso também que o Axé é essa mistura e ritmos”, afirmou ele.  

Também foi a partir da WR que o Axé conseguiu ultrapassar as fronteiras baianas e conquistar o Brasil. Segundo Nuno, quando Luiz Caldas foi contratado, a gravadora começou a se profissionalizar e comprar equipamentos melhores para que os artistas pudessem produzir as próprias músicas. Roberto Santana, produtor musical baiano, encontrou a WR no momento em que estava procurando algo para lançar. 

“Os dois primeiros discos lançados nessa época, pelo selo ‘Nova República', de Roberto Santana, foi ‘Magia’ de Luiz Caldas e o de Gerônimo. Ele pegou esses discos e levou a Poligran, que era a grande gravadora nacional, e através dela, eles lançaram esse disco nacionalmente”, afirmou. (03:39 - 04:39)

Nuno ressaltou que Luiz Caldas não foi aceito de primeira no mercado do sudeste. Nessa época, as produções baianas sofriam muito mais com a desvalorização do mercado musical. O sucesso de Luiz começou em Salvador, quando teve mais 100 mil cópias vendidas do primeiro disco. Com a popularização, ele teve a oportunidade de estrear no programa Cassino do Chacrinha, em um auditório da TV Globo. E foi assim que os holofotes começaram a se virar para o que era produzido na Bahia. 

Luiz Caldas no programa do Chacrinha

Reprodução

O historiador, Paulo Miguez, destacou em entrevista sobre a importância do Axé ter se expandido sem precisar sair do território baiano, diferente de outros movimentos musicais, como a Tropicália, que precisou ir para o sudeste para fazer sucesso. 

“O axé explode para o Brasil a partir daqui, diferente da Tropicália, por exemplo, que foi uma ruptura fundamental para a trama cultural, mas precisou sair da Bahia para fazer sucesso. Chacrinha jogou um papel muito importante”, afirmou. 

Para além da música, Miguez também ressaltou como essa expansão influenciou no nascimento do mercado cultural da Bahia, abrindo portas para que as pessoas trabalhassem com cultura. 

“Eu acho que uma trama muito importante que a axé oferece à Bahia, é o mercado da cultura. Ele se inicia, exatamente, na criação da festa e na criação do axé. Isso é muito importante pra nós”. 

Segundo o historiador, com o início do mercado da cultura, é possível encontrar mais pessoas trabalhando na área do que em indústrias. Esse destaque também possibilitou o início das vendas de instrumentos musicais na Bahia. 

“Você vê mais gente trabalhando no mercado da música, do espetáculo, do que em áreas industriais. Outra oportunidade que proporcionou à Bahia foi a compra de instrumentos musicais que, antigamente, só chegavam aqui através do contrabando, as lojas de instrumentos musicais daqui tinham limitações. Isso só foi possível por conta da emergência do Axé Music”. 

Inclusão do pagode aos feats com o funk: a nova face do axé 

Este novo mercado foi o cenário perfeito para o surgimento de novos ícones do Axé. Nos anos 90, ele passou por um novo auge quando os novos sucessos como Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Bell Marques, Carlinhos Brown, Saulo e muitos outros começaram a ganhar visibilidade. Com o passar dos anos o axé foi recriando a sua identidade musical para se adaptar às tendências. 

“Acho que é uma má vontade muito grande imaginar que é tudo igual no Axé, é tudo diferente. A música do Bell é diferente do Durval, que, por sua vez, é diferente da Ivete, que é diferente da Daniella. Só ouvidos mal humorados para achar que é tudo a mesma coisa”, afirmou Paulo Miguez.

Nesse período, as bandas de pagode também começaram a surgir, como a Companhia do Pagode, Gang do Samba, e É o Tchan - que surgiu como Gerasamba e conquistou o público através das músicas coreografadas e letras com duplo sentido. É um ritmo que também tem passado por transformações, dando início a geração do “pagodão baiano”, que herda do pagode raiz a facilidade criar coreografias, mas com um ritmo mais acelerado e letras musicais mais explícitas. 

Reprodução

Já nos 2000, os artistas começaram a ganhar mais projeção do que a banda, e deram seguimento com carreira solo, como foi o caso de Claudia Leitte e Léo Santana, por exemplo. Hoje em dia, os artistas preferem investir em feats - expressão inglesa que significa “parceria com” ou “com a participação de” - com cantores de gêneros musicais como o funk, sertanejo e o pop; mostrando que o axé tem diversas faces e se adapta às novas gerações sem perder a essência.

Em 2024, por exemplo, o hit “Macetando” de Ivete Sangalo com Ludmilla foi a música do carnaval. Nele, pode-se notar que há uma mistura de ritmos, dos solinhos de guitarra às batidas de funk. As coreografias também mesclam os “passinhos” do funk carioca com o famoso “swing baiano”. Essa nova estratégia do Axé Music também visa atrair mais o público jovem, que tem se interessado cada vez mais por músicas que se destacam como “trends” - termo em inglês que significa tendência - nas redes sociais.

Quedas nas vendas: seria o fim do Axé Music?

Mesmo com todas as conquistas e transformações, o axé não escapou da crise. Com a massificação de estúdios de música e expansão da pirataria, especulações sobre o fim do Axé Music começaram a acontecer, mas foi logo desmentido. 

"Eu já ouvi falar na morte do Rock in Roll, na morte da Axé, mas ele nunca morreu. Ele está vivo, muito bem, manda lembranças, e continua nos encantando. Por ser um gênero que produz muito, podem pensar que nem tudo é de excelente qualidade”, destacou Paulo Miguéz. 

A morte do Axé Music começou a ser debatida em 1989, segundo Nuno. Ele explicou que os discos seguintes de Luiz Caldas não venderam tanto quanto o primeiro, e a queda nas vendas deu início a essa superstição. 

“O axé sempre teve esse olhar estranho do pessoal por ser uma música mais popular, com letras mais simples. O axé é muito mais movimento natural de rua do que, necessariamente, um projeto comercial de uma gravadora ou de alguém”, explicou Nuno Penna.

O Estúdio WR também sofreu os impactos dessa crise. Atualmente, se sustenta a partir do aluguel de produtores.  

“No auge dela, a WR chegou a ter 80 funcionários e funcionava 24h por dia. Com muita dificuldade, ela conseguiu se manter. O prédio ainda existe, mas funciona em um esquema diferente onde os produtores alugam o estúdio perenemente”, contou Nuno. 

Nuno também explicou que a pirataria fez com que as pessoas parassem de comprar CD ou Vinil para consumir música e isso levou as gravadoras à falência. 

“Eram elas que tinham mais ou menos o monopólio de quem ia gravar ou não, pois eram elas que bancavam. E houve também uma massificação de estúdios, pois saiu do analógico para o digital, então muita gente passou a ter um estúdio próprio, porque ficou muito mais barato e fácil”. 

Nuno construiu um documentário, intitulado como ‘WR Discos - Uma invenção musical’, para mostrar axé como movimento artístico que aconteceu em Salvador, além de homenagear a trajetória da WR. Ele conta que o projeto ainda não conseguiu patrocínio financeiro para dar continuidade. 

“Eu sinto falta da gente olhar para o Axé Music, não como uma indústria, como um bloco de carnaval, ou aquela banda que fez sucesso; é o Axé Music como música, um processo musical que aconteceu em Salvador. A gente vem fazendo esse documentário há 12 anos e ainda não encontrou patrocínio, nem incentivo público nem privado, mas que está nesta busca para poder pagar os direitos autorais e poder lançar o filme de forma bacana pra todo mundo”. 

Exposição sobre o documentário na Caixa Cultural Salvador

Divulgação

Este documentário também foi uma das formas de imortalizar o legado axé, e contribuir para que ele se estenda para as novas gerações. 

“Enquanto tiver carnaval e tiver um trio elétrico, o axé não vai morrer. Rangel morreu dizendo que era o novo que tinha que prevalecer, é o novo que dá oxigênio ao movimento. Os próprios produtores e blocos de carnaval se fechavam e não deixavam nada surgir, mas eles vão passar e o axé vai ficar", completou Nuno.

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