Dólar encosta em R$ 5, menor cotação em dois anos, e Bolsa renova recorde, com dados de inflação e trégua no Irã
É o menor valor para o dólar desde 9 de abril de 2024, quando atingiu R$ 5,006

Foto: Reprodução/Pixabay
O dólar voltou a se aproximar de R$ 5,00 nesta sexta-feira (10) e quase chegou a esse patamar pela primeira vez desde o início de 2024.
Afetado por dados de inflação do Brasil e dos Estados Unidos, bem como pelos desdobramentos do acordo de cessar-fogo no Oriente Médio, a moeda encerrou a semana em forte queda de 1,03%, cotada a R$ 5,010. Na mínima do dia, chegou a R$ 5,005.
É o menor valor para o dólar desde 9 de abril de 2024, quando atingiu R$ 5,006.
O impulso também chegou à Bolsa brasileira, que renovou o recorde histórico pelo terceiro dia consecutivo. A alta foi de 1,12%, com o Ibovespa marcando 197.323 pontos no fechamento. O pico do dia, de 197.553 pontos, também marca uma nova máxima para o índice durante o período de negociações.
A sessão, segundo Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, foi embalada principalmente pela melhora do cenário geopolítico. O avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã, diz ele, "reduziu o prêmio de risco global e enfraqueceu a demanda por proteção".
Isto é, incentivou que investidores buscassem ativos mais arriscados e que oferecem retornos maiores, embora não tão seguros quanto a moeda norte-americana. Esse movimento levou o dólar a registrar perdas generalizadas: o índice DXY, que o compara a uma cesta de seis divisas fortes, caiu 0,2%, a 98,67 pontos, denotando fraqueza global.
Grande parte do otimismo tem a reabertura do estreito de Hormuz, uma das principais vias de petróleo e gás natural do mundo, como pano de fundo. Desde a trégua anunciada na terça-feira (7), algumas embarcações já estão conseguindo atravessar o canal marítimo a maioria delas ligada ao Irã, segundo dados de rastreamento de navios das plataformas Kpler e Lloyd's List Intelligence.
Ainda que a área esteja fechada para outras bandeiras, as negociações para normalização seguem em curso. Representantes de EUA e Irã terão as primeiras conversas de paz no Paquistão a partir deste sábado (11).
"Caso haja avanço nas conversas, é provável que se observe uma extensão das quedas nos preços do petróleo, impulsionada pela expectativa de reabertura gradual do estreito", diz Bruno Cordeiro, especialista de inteligência de mercado da Stonex. O petróleo Brent, referência internacional, estava em queda de mais de 1% nesta sessão, a US$ 94 o barril.
"Por outro lado, uma frustração nas negociações pode resultar em novas altas no petróleo e derivados. Isso refletiria um mercado já pressionado por um balanço global apertado, em função da redução significativa das exportações de energia provenientes do Oriente Médio."
A extensão do cessar-fogo, segundo o analista, depende agora de negociações também envolvendo Israel e Líbano, previstas para ocorrer em Washington na próxima semana.
"À luz dos repetidos pedidos do Líbano, eu instruí o gabinete ontem a começar negociações diretas o mais rapidamente possível. Elas vão focar em desarmar o Hezbollah e estabelecer relações pacíficas entre Israel e o Líbano", disse em nota Netanyahu.
As tratativas entre Tel Aviv e Beirute provocaram "um novo suspiro de alívio nos mercados por enquanto, ainda que moderado", afirmou John Kilduff, analista da Again Capital.
Além da Bolsa brasileira, outras praças também registram ganhos: a de Xangai, por exemplo, fechou a semana no positivo pela primeira vez desde o início da guerra, em 28 de fevereiro. O índice SSEC terminou o dia com valorização de 0,51%, e o CSI300, que reúne as principais companhias em Xangai e Shenzhen, subiu 1,54%.
Os outros mercados asiáticos também se valorizaram, como Tóquio (1,84%), Hong Kong (0,55%), Seul (1,4%) e Taiwan (1,6%). Na União Europeia, o índice Euro STOXX 600 subiu 0,34%. Também avançaram Frankfurt (0,2%), Paris (0,17%) e Madri (0,55%).
Em Wall Street, o clima foi misto. Enquanto o Nasdaq Composite avançou 0,3%, o S&P500 e o Dow Jones recuaram 0,17% e 0,56%, respectivamente, sob efeito dos dados de inflação dos Estados Unidos.
Dados medidos pelo CPI (índice de preços ao consumidor, na sigla em inglês) registraram o maior aumento mensal em quase quatro anos, também afetados pela disparada do petróleo.
A alta foi de 0,9% no mês passado, o maior aumento desde junho de 2022, quando os preços dispararam em resposta à guerra entre Rússia e Ucrânia. Em fevereiro, a subida havia sido de 0,3%.
Nos 12 meses até março, o índice avançou 3,3%, contra 2,4% registrado em fevereiro. Os dados vieram em linha com as expectativas de economistas ouvidos pela Reuters.
Por outro lado, o núcleo do CPI, que exclui alimentos e energia, reportou um crescimento "bem mais contido", diz Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad. A alta foi de 0,2% no mês, acumulando ganho de 2,6% em 12 meses, ambos 0,1 ponto percentual abaixo do esperado.
Para Lobo, os números indicam que, apesar do choque externo, a inflação permanece sob controle, o que pode levar o Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) a dar menos relevância ao pico causado pelo preço do petróleo e manter o foco na trajetória inflacionária de longo prazo.
"A leitura sugere que a inflação núcleo está desacelerando, o que corrobora a sinalização de integrantes do Fed sobre uma possível redução de 0,25 ponto percentual nos juros, embora o timing exato continue incerto e o mercado ainda precifique poucas chances de cortes agressivos ao longo de 2026", afirma.
A hipótese predominante segue sendo que o Fed só corte juros em 2027, tirando a atratividade da renda variável nos Estados Unidos.
Os efeitos da guerra também já são sentidos por aqui. A inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), acelerou a 0,88% no mês passado, após marcar 0,70% em fevereiro, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O índice foi pressionado pelas altas dos grupos transportes (1,64%) e alimentação e bebidas (1,56%) o primeiro inclui os combustíveis. Juntos, eles responderam por 76% do IPCA de março, conforme o IBGE.
"A leitura de março foi amplamente impactada pelos impactos globais do conflito no Irã, como se nota no comportamento dos combustíveis. Com o cessar-fogo de duas semanas, a chance de uma contaminação do restante da inflação pelo choque do petróleo diminui", diz André Valério, economista sênior do Inter.
"Ainda assim, não vemos a melhora do conflito como suficiente para dar tranquilidade ao Copom, mas esperamos que o comitê continue o ciclo de cortes, em ajustes de 0,25 ponto percentual. O elevado aperto monetário, além do comportamento do câmbio, que tem operado consistentemente abaixo de R$ 5,10, dá tranquilidade suficiente para o Copom manter o ritmo de cortes."


