“Demos um grande passo”, diz Anielle Franco após condenação dos irmãos Brazão pelo STF
Decisão unânime responsabiliza mandantes do crime

Foto: Rosinei Coutinho/STF
A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por unanimidade, condenar os irmãos Domingos Brazão e Chiquinho Brazão por planejarem e mandarem matar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, assassinados em 14 de março de 2018, no Centro do Rio de Janeiro.
Após o julgamento, a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, irmã de Marielle, afirmou que o resultado representa um avanço na busca por responsabilização. "Não tem celebração, mas, eu diria, afirmação do que a gente lutado durante os últimos oito anos. Acho que os votos foram fortes. Acho que tiveram falas muito importantes principalmente direcionadas à violência política, gênero e raça, que acho que esse é um ponto que a gente precisa pegar", afirmou.
Ela ressaltou, no entanto, que a decisão não apaga a ausência da irmã. "Mas eu confesso que Justiça mesmo seria a Mari estar aqui, mas, hoje, a gente deu um grande passo. Que isso sirva de exemplo para muitas pessoas, que não existe impunidade para nenhum crime", prosseguiu.
Anielle também mencionou as manifestações dos ministros Flávio Dino e Cármen Lúcia, que acompanharam integralmente o voto do relator, Alexandre de Moraes. Segundo ela, as falas reforçaram críticas à condução inicial das investigações e destacaram a necessidade de garantir que outras famílias não enfrentem situação semelhante. "Acalenta saber que a luta da gente chegou a oito anos depois com as respostas que estamos tendo aqui hoje", prosseguiu.
Familiares das vítimas acompanharam o julgamento e falaram com a imprensa após a sessão. O pai de Marielle, Antônio Francisco, classificou o período de espera como angustiante, mas destacou a relevância da decisão. A mãe da vereadora, Marinete Silva, afirmou que o sentimento é de alívio. "Saímos aqui de cabeça erguida. Não foi em vão, a gente sai com coração acalentado", afirmou.
Ela também reforçou a importância das instituições democráticas. "Hoje temos uma resposta e agradeço muito, que é possível acreditar numa instituição séria, se não fosse a democracia não estaríamos aqui. Nunca vamos admitir impunidade", prosseguiu.
A filha de Marielle, Luyara Franco, disse que o dia foi difícil e relembrou o impacto emocional da sessão, durante a qual ela e a avó passaram mal. "Quero agradecer e ressaltar a coragem da nossa família [...]. Vamos seguir com força e coragem", frisou.
A esposa de Anderson Gomes, Agatha Arnaus, avaliou que a decisão renova a esperança. "Tem frase ecoando na minha cabeça: para que o mal prevaleça, basta que os bons não façam nada. Hoje também presencio a parte boa dos que estão fazendo bem", justificou.
O processo chegou ao Supremo quase oito anos após o crime. As investigações apontaram motivação política relacionada à atuação de Marielle contra interesses de milicianos e de loteamentos clandestinos na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
A Procuradoria-Geral da República denunciou os irmãos Brazão como mandantes do assassinato, além de apontar a participação de outros envolvidos no planejamento e na estrutura da organização criminosa. Em junho de 2024, o STF recebeu a denúncia e tornou os acusados réus.
Com o fim da fase de instrução, concluída entre 2024 e 2025, a Primeira Turma iniciou o julgamento e decidiu pela condenação dos irmãos pelos homicídios de Marielle e Anderson, pela tentativa de homicídio da assessora Fernanda Chaves, que ficou ferida no ataque, e por organização criminosa.
Os ministros também condenaram o major da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira pelos mesmos crimes. Já Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior foi responsabilizado por obstrução à Justiça e corrupção passiva, mas não pelos homicídios. Robson Calixto Fonseca foi condenado por organização criminosa.


