Irmão de Alexandre de Moraes atuou em instituições semelhantes com ministro e hoje comanda cartório em Santos
Leonardo de Moraes chegou até a compartilhar sociedade no mesmo escritório de advocacia

Foto: Divulgação/LC Agência de Comunicação
O advogado, tabelião e professor de Direitos Humanos, Leonardo de Moraes, de 47 anos, irmão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), circulou, nas últimas duas décadas, pelos mesmos gabinetes que o magistrado, passou por instituições semelhantes e até a compartilhar sociedade no mesmo escritório de advocacia. As informações são do jornal Gazeta do Povo.
Em 2017, mesmo ano em que o irmão tomou posse no STF, ele assumiu a titularidade do 1º Cartório de Notas de Santos, após aprovação em concurso público. Hoje, além de tabelião, Leonardo se diz um “recruta tardio” da democracia, movido pela necessidade de combater o que chama de “ciclo de retorno do pensamento de ultradireita”.
Segundo ele, a escolha pela atividade foi motivada pela estabilidade financeira, permitindo conciliar o trabalho com projetos artísticos e literários.
Seis anos depois, ele lançou o romance "Tia Beth", que busca conectar o período do regime militar com o que enxerga como riscos autoritários do Brasil pós-Bolsonaro.
Influência do irmão
Em janeiro de 2003, ele ingressou como assessor jurídico na Fundação CASA — então ainda chamada de Febem/SP, a instituição responsável pela internação de menores infratores no estado. Na mesma época, Alexandre era secretário da Justiça e da Defesa da Cidadania de São Paulo, nomeado pelo então governador Geraldo Alckmin. Leonardo ficou no cargo até junho de 2004.
Em agosto do mesmo ano, Alexandre de Moraes também assumiu a presidência da Fundação Casa. Segundo a reportagem, os irmãos não apareciam lado a lado no organograma, mas o local de trabalho era o mesmo.
De julho de 2004 a dezembro de 2006, Leonardo serviu como assessor jurídico nos gabinetes de Alckmin e do vice-governador Cláudio Lembo. Alexandre ainda ocupava o cargo de secretário da Justiça e da Defesa da Cidadania.
Entre 2009 e 2014, os dois irmãos viraram sócios no escritório Alexandre de Moraes Advogados Associados, especializado em Direito Público. Leonardo permaneceu no escritório até se licenciar para ingressar na carreira notarial.
Posicionamentos ideológicos
Em entrevistas concedidas, Leonardo de Moraes não poupa críticas à direita brasileira, o que ele chama de "ultradireita". "Ela tem um amontoado de preconceitos que ganharam algum tipo de lustro e que, na voz de algumas pessoas, acabam ganhando até uma percepção de intelectualidade.”
Ele também aponta o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como oportunistas religiosos. "O Trump começou a vender Bíblias com o rosto dele. Qualquer pessoa que faça uma mínima pesquisa sobre a trajetória do Trump sabe que de religioso ele nunca teve nada. Idem o Bolsonaro: nunca foi religioso, mas é conveniente se aliar a esse discurso.”
Há críticas ainda aos que acusam as escolas brasileiras de doutrinar estudantes, Leonardo responde com ironia: "Dizem que formam comunistas. Eles nem sabem o que é comunismo. Quando falam em marxistas, são pessoas que nunca leram Karl Marx ou O Capital. Estão apenas repercutindo aquilo que foi falado para elas em tom de preconceito”.
Suspeição contra tabelionato em Santos
Em fevereiro, um pedido formal de suspeição foi protocolado pelo ex-presidente do MDB de Praia Grande, Edmundo Berçot Júnior, no STF contra o ministro Alexandre de Moraes, alegando que ele usou seu cargo para proteger o tabelionato do irmão em Santos.
Berçot sustenta que Leonardo estaria em uma lista de “delegatários irregulares” que deveriam ter sido removidos do cargo por força de regras do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criadas em 2009.
Segundo a publicação, a polêmica surgiu durante o julgamento da ADPF 209, um processo que discutia justamente as regras para quem comanda cartórios em São Paulo. Na ocasião, Alexandre de Moraes foi o único a divergir do relator e de todos os outros colegas: ele votou pela “perda de objeto”, uma manobra que, na prática, faria o tribunal parar de discutir o assunto e manteria tudo como estava.
Leonardo nega qualquer irregularidade e defende seu direito ao posto com base no esforço pessoal. “Estudei para caramba para passar nesse concurso”, afirma em entrevistas.
Ele classifica o pedido de suspeição como um tipo de “terrorismo emocional da ultradireita” e uma tentativa de usar sua trajetória para atingir o ministro. O processo, porém, segue no STF, ainda sem decisão final.


