Vídeos de Britney Spears reacendem debate sobre saúde mental feminina, TDAH e uso de estimulantes!
Psiquiatra Thaíssa Pandolfi explica por que reduzir o caso a “excesso” ou “dependência” ignora o sofrimento invisível por trás da exposição pública

Foto: Redes Sociais
O recente retorno de Britney Spears ao Instagram, após um período afastada das redes sociais, voltou a mobilizar fãs e levantar preocupações sobre sua saúde emocional. Nos vídeos, que rapidamente viralizaram, a cantora aparece dançando ao som de “Bad Guy”, de Billie Eilish, enquanto a discussão sobre seu bem-estar migrou para outras plataformas.
A repercussão também resgatou um trecho de The Woman in Me (2023), no qual Britney relata o uso de Adderall, medicamento indicado para TDAH. Embora não exista confirmação pública de diagnóstico, o tema traz à tona a questão de até que ponto o uso de estimulantes reflete um transtorno não reconhecido, trauma prolongado ou uma tentativa de sobreviver emocionalmente?
Para a médica psiquiatra Dra. Thaíssa Pandolfi, especialista em saúde mental feminina e neurodivergências, o debate público costuma ir pelo caminho mais raso. “Quando uma mulher famosa fala sobre o uso de um estimulante, a discussão rapidamente se polariza entre ‘dependência’ ou ‘abuso’. Na clínica, a pergunta é outra, o que leva alguém a precisar, ainda que por algumas horas, de silêncio interno?”, afirma.
Segundo a especialista, o Adderall atua aumentando dopamina e noradrenalina, neurotransmissores ligados à atenção, motivação e energia mental. Em pessoas com TDAH corretamente diagnosticado, pode reduzir impulsividade e sensação de desorganização cognitiva. “Mas esses medicamentos também podem gerar, de forma transitória, clareza mental e alívio emocional. Não tratam traumas, não reorganizam a identidade, mas podem permitir algumas horas de funcionamento e, para quem vive sob estresse crônico, isso pode parecer essencial”, explica.
A psiquiatra ressalta que não há confirmação pública de diagnóstico de TDAH no caso de Britney e que qualquer tentativa de diagnóstico retrospectivo é antiética. Ainda assim, o caso escancara questões estruturais. “Mulheres com TDAH são historicamente subdiagnosticadas. Muitas passam anos recebendo rótulos de ansiedade, instabilidade emocional ou transtornos de humor antes que a dimensão atencional seja reconhecida. Ao mesmo tempo, traumas prolongados e perda de autonomia também podem produzir sintomas que se parecem com TDAH”, pontua.
No contexto da artista, Dra. Thaíssa destaca fatores como exposição midiática precoce, vigilância constante e controle institucional prolongado. “Um sistema nervoso submetido a estresse contínuo entra em hipervigilância. O cérebro tenta se autorregular, às vezes por meio de medicamentos prescritos, às vezes por outras estratégias que não são necessariamente saudáveis”, diz.
Ela alerta ainda para a diferença entre dependência química estruturada e tentativas de regulação emocional. “O transtorno por uso de substâncias tem critérios claros. Sem avaliação clínica, qualquer rótulo é especulação. O que não é especulativo é que mulheres sob pressão extrema aprendem a manter a funcionalidade mesmo em colapso interno”, afirma.
Para a especialista, o caso de Britney funciona como um espelho social. “Antes de julgar a estratégia de enfrentamento, precisamos perguntar se houve espaço para diagnóstico adequado, escuta qualificada e cuidado real. O problema raramente começa na substância. Ele começa quando o sofrimento não encontra nome, nem acolhimento”, conclui.
Em meio à viralização dos vídeos e à comoção dos fãs, o episódio reacende um debate urgente: quantas mulheres estão tentando regular sozinhas um sistema nervoso sobrecarregado, apenas para conseguir seguir funcionando?

