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Brasil precisará mais do que duplicar produção de energia mesmo com meta ambiental fraca

Os dados são de um relatório da Bnef, o braço da Bloomberg de pesquisas sobre transição energética

Por FolhaPress
Ás

Brasil precisará mais do que duplicar produção de energia mesmo com meta ambiental fraca

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Brasil precisará aumentar sua capacidade instalada de eletricidade para 574 GW (gigawatts) até 2050 mesmo se o país não cumprir sua meta de zerar as emissões de gases do efeito estufa até lá. Os dados são de um relatório da Bnef, o braço da Bloomberg de pesquisas sobre transição energética.

Hoje, a capacidade instalada do país é de 235 GW e, no cenário de zero emissões até 2050 esse valor precisará subir para cerca de 842 GW.

A capacidade instalada é a quantidade de energia que o país conseguiria produzir se todas as suas instalações operassem em plena capacidade ao mesmo tempo. Isso, no entanto, não costuma acontecer, seja porque térmicas não são sempre acionadas ou porque não há sol e vento durante todo o dia.

O cálculo da Bnef leva em conta que a demanda por algumas tecnologias dependentes de eletricidade crescerá no país motivada pela queda dos preços. A organização calcula, por exemplo, que os carros elétricos já são mais baratos no Brasil para aqueles motoristas que percorrem mais de 16 mil quilômetros por ano -e essa diferença deve se tornar cada vez maior nos próximos anos.

"Esse crescimento todo vem por questões econômicas, não só por questões climáticas. O Brasil não investe tanto em energia renovável, por exemplo, só por uma questão climática; é por uma questão econômica", diz Vinicius Nunes, chefe de pesquisa do mercado brasileiro de transição energética na Bloomberg.

Segundo a organização, a eletrificação será responsável por 55% da substituição de combustíveis fósseis em um cenário de zero emissões até 2050. Desse montante, quase 70% vem da mudança de carros movidos à combustão por veículos elétricos e os 30% restantes da eletrificação de processos industriais.

A segunda maior alternativa aos combustíveis fósseis também é dentro do setor elétrico -a Bnef calcula que a geração de eletricidade renovável e nuclear será responsável por substituir os 10% da atual demanda por combustíveis fósseis no Brasil. Essa é a porcentagem do uso de gás, carvão e petróleo na atual geração de eletricidade no país.

Hidrogênio de baixa emissão (10%), captura de carbono (9%) e biocombustíveis (8%) também serão importantes alternativas aos fósseis.

Mas o último pode abocanhar maior fatia dos fósseis a depender de políticas públicas que favoreçam a compra de carros híbridos em detrimento de veículos elétricos. O Brasil é um dos maiores produtores de etanol do mundo e, junto com outros países em desenvolvimento, como a Índia, tenta expandir o mercado mundial de biocombustíveis -o que agrada montadoras de fora da China.

A análise da Bnef, porém, leva em conta os cenários mais econômicos, independentemente de políticas públicas. "Esse seria o modelo em que o Brasil chegaria a zero emissões da forma mais barata, mas não quer dizer que o Brasil tem que parar de promover carros híbridos, até porque os carros híbridos possuem um papel importante na questão da transição", diz Nunes.

"Carros elétricos demandam infraestrutura de carregamento, desenvolvimento maior de baterias e carregamento rápido, então o carro híbrido é importante como um veículo transitório. Só que o carro híbrido, principalmente o plug-in, sempre vai ser mais caro do que um veículo elétrico, porque ele precisa de dois motores. Então a longo prazo, à medida que o preço do carro elétrico caia, esses carros não vão ficar competitivos", acrescenta.

Também por uma questão de competitividade, a Bnef prevê que energias eólica e solar, assim como baterias serão mais demandadas mesmo em um cenário diferente de zero emissões. O caso mais brando -chamado de transição econômica- considera um cenário em que a temperatura do planeta suba 2,6º até 2100 em relação aos níveis pré-industriais, enquanto o aumento no de zero emissões é de 1,75ºC.

Por outro lado, a demanda por hidrogênio de baixa emissão, combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês) e captura de carbono só existirão em um cenário de zero emissões, segundo a Bnef. "Isso quer dizer que você precisa dessas tecnologias para chegar em zero emissões, mas do jeito que está hoje elas nunca vão se viabilizar economicamente, a não ser que você tenha uma política pública de subsídio", diz Nunes.

Os dados da Bloomberg são interessantes porque apresentam um alerta para o sistema elétrico brasileiro. O Brasil vive hoje excesso de geração de energia em determinados períodos do dia, o que obriga o ONS (Operador Nacional do Sistema) a cortar a geração de algumas empresas, provocando reações negativas do setor privado.

A constatação da Bnef, no entanto, é que o país precisa continuar ampliando sua rede elétrica. Para isso, na visão de especialistas, o país precisa aumentar a demanda pela energia para que a oferta nova não seja cortada.

"É um problema do ovo à galinha, mas é uma fase transitória. Os produtores de energia e os distribuidores querem atrair essa demanda, só que o problema é que você cria uma crise, porque no curto prazo você não consegue crescer a demanda tão grande", diz Nunes.

"Mas promover a demanda é difícil, principalmente porque para algumas indústrias economicamente não vai fazer sentido no início essa eletrificação ou outro processo de descarbonização, porque são setores difíceis de abatimento. Então são setores que precisam de políticas públicas para alavancar essa demanda, como o hidrogênio verde", acrescenta.

A Bnef calcula que o Brasil precisará investir até 2050 US$ 5,6 trilhões em energia, no cenário fora da zero emissões, sendo US$ 4,3 tri no lado da demanda. Já no cenário zero emissões, o valor total sobe para US$ 6 trilhões, sendo também US$ 4,3 tri no lado da demanda.
 

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